ALCAPARRAS (CAPERS, KAPERN, CÂPRE, CÀPPERO).
O autor responde: sergio.di.petta@cmg.com.br
Envie para o autor suas dúvidas sobre plantio, colheita e cura da alcaparra e o seu uso no preparo dos pratos.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

105. PASTO SOMBREADO POR EUCALIPTOS ( APÓS GEADA)


O criador de gado demorou um pouco para entender que o gado precisa de sombra para descansar. Ficando ao sol o dia inteiro, sem dúvida, perde parte do leite e do ganho de peso. Muitos criadores de SP já utilizam o eucalipto para sombrear seus pastos com ótimos resultados propiciando a sombra necessária para o gado – quer seja de corte ou leite – mas a prática desse procedimento mostrou que ele traz, também, outros benefícios.
Principalmente em locais onde o terreno tem forte declividade, o apiloamento do solo causado pelo pastoreio faz com que as águas da chuva escorram rapidamente diminuindo sobremaneira a umidade que penetra no solo e, como conseqüência, diminuirá a realimentação de água do lençol sub-superficial, trazendo resultados funestos para as nascentes de água eventuais. Entretanto, essa não é a pior conseqüência. A falta de sombreamento do pasto resseca a terra superficial de onde, por exemplo, a braquiária decumbens, ou outra gramínea, retira a umidade necessária para vegetar.  Pastos sem sombreamento são ineficazes, necessitam de muito controle e aporte de adubo, o que nos leva a conclusão que um pasto sombreado tem um melhor custo/beneficio.

Por outro lado, o plantio do eucalipto em renques, deixando um espaço entre eles onde fica somente o pasto, pode não ser uma solução para terrenos inclinados, quiçá nem para terrenos planos. Se, após a plantação houver uma rareamento, o que normalmente é sempre feito quando a finalidade da plantação de eucaliptos é de obter madeira e não papel,  pela altura das massa foliar dos eucaliptos passará sempre nesgas de sol, ou seja, o pasto entre os eucaliptos sofrerá sempre a insolação necessária para seu desenvolvimento, especialmente se houver controle, ao longo do tempo, do espaçamento entre as árvores.

Outra grande vantagem de plantar eucaliptos em pastagens é que esse consórcio permite ajudar o meio ambiente porque a massa foliar do eucalipto transpira pouco (tem pouca massa foliar se comparado a outras grande árvores), isto é, não elimina muita água durante sua respiração, contribui com a fotossíntese no fornecimento do oxigênio,  e sua copa alta e com poucas folhas, permite a passagem do sol, especialmente se o espaçamento entre árvores for conveniente.  A raiz pivotante do eucalipto se aprofunda no solo e, além de facilitar a penetração das águas pluviais solo adentro, ainda se torna uma forte sustentação do vegetal. É muitíssimo difícil ver eucaliptos que tenham caído decorrente de ventania. No máximo, às vezes, pode ser quebrado algum galho.

Um capão de eucalipto contribui para que muita água da chuva penetre no solo. Além disso, sua massa foliar também adsorve umidade da chuva em grandes quantidades devolvida, às vezes no dia seguinte, quando aparecem os primeiros raios solares. Essa umidade é a formadora de novas nuvens, necessárias para as tais chuvas locais.

Soma-se a todas essas qualidades o fato de o eucalipto, ou a Corímbia (eucalipto) citriodora, ser a única árvore que está servindo, na prática, para substituir as madeiras de nossa mata natural retiradas dos estados de Mato Grosso e Amazonas e Pará.


Telhados, postes, estacas, moirões e muito mais podem ser feitos com essa árvore exótica que está a suprir as necessidades do homem do campo e da cidade. Também noventa por cento da celulose para papel, inclusive papel higiênico, devemos aos eucaliptos, que precisam ser plantados. Amém.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

104. EUCALIPTO SECA A TERRA?








Eucalipto: mitos e verdades sobre a absorção de água do lençol freático

O mito em torno do eucalipto vem de longa data e, sem que ninguém saiba como e onde começou, permanece ao longo das gerações


Ao eucalipto se atribui estranhas propriedades e capacidades, tais como diminuir a formação de chuvas devido ao poder esterilizante das substâncias que suas folhas exalam, ou causar a morte das abelhas ou, ainda, criar um “deserto verde” pelo fato de ser naturalmente  antagônico à flora e à fauna. O aspecto mais forte deste mito, todavia, é com relação à água, onde o eucalipto teria a inusitada capacidade de consumir enormes quantidades, secando o solo, as nascentes e o lençol freático.

Com o intuito de contribuir para o entendimento desta controvérsia, é interessante separar os aspectos folclóricos, daqueles que realmente têm algum fundo de verdade. Neste sentido, começaríamos com a própria palavra “eucalipto”. Não existe nada inerentemente errado com a árvore eucalipto, ou com a espécie eucalipto, ou com o gênero Eucalyptus. É uma árvore como qualquer outra. Ou seja, é uma espécie florestal que funciona exatamente como outras espécies em termos de fisiologia, hidrologia, limitações, potencialidades e interações  ecológicas.

Esta constatação decorre de pesquisas que foram desde cedo direcionados para o estudo do seu consumo de água, e que mostraram que a espécie possui os mesmos mecanismos fisiológicos que regulam a transpiração e apresenta um consumo de água dentro dos padrões normais, sendo que este consumo também é regulado pela disponibilidade de água no solo e pelas condições climáticas que governam o processo de evaporação, exatamente como ocorre com a maioria das espécies vegetais. Ou seja, as evidências científicas mostram que a alegada capacidade de transpirar enormes quantidades de água que a imaginação popular atribui ao eucalipto não se sustenta.

É comum, também, ouvir que as raízes do eucalipto absorvem água diretamente do lençol  freático, razão pela qual estão com as folhas sempre verdes mesmo na estação seca do ano. Isto pode ocorrer quando o eucalipto é plantado em áreas onde o lençol freático é superficial, como nas margens de cursos d´água ou onde ocorre lençol freático do tipo suspenso, quando é localizado, pequeno e superficial.

Em condições normais, o lençol freático é mais profundo do que o alcance do sistema radicular e as árvores crescem pela absorção da umidade do solo. Estudos de campo têm mostrado que a transpiração do eucalipto diminui com a diminuição do teor de umidade no solo, assim como também diminui na estação seca do ano. Outros estudos mostram que a produtividade, assim como a transpiração, aumenta quando a plantação de eucalipto recebe água por irrigação. É preciso, todavia, não confundir estas verdades, com outra verdade, também verificada experimentalmente, que as plantações florestais de eucalipto em larga escala consomem bastante água. Nesse sentido, plantações de Pinus ou de outras espécies florestais de rápido crescimento também consomem bastante água se comparada com vegetação de menor porte.

Neste caso estamos falando de extensas áreas ocupadas por plantações de uma mesma espécie, de rápido crescimento e alta produtividade. É evidente que esse processo demanda água. A produção florestal se dá ao custo do consumo equivalente de água. Não há como se obter um sem afetar o outro. Os resultados mostrados na figura 1 representam valores médios de dois anos consecutivos de medições da chuva e da água no solo, em um perfil de 2 metros de profundidade, onde se concentra a maior parte do sistema radicular das árvores, em parcelas vizinhas de plantação de eucalipto, Pinus e de vegetação natural da região do experimento, o cerradinho, ilustram bem o consumo de água pelo eucalipto e seu impacto sobre o lençol freático.

O consumo total de água por uma plantação florestal é a soma da transpiração, água absorvida do solo, e da interceptação, isto é, de parte da água da chuva que fica retida no dossel florestal e se perde por evaporação. O valor marcado nos quadrados brancos da figura, no meio do perfil de 2 metros do solo, representa a média anual do total de água absorvida do solo pelas raízes, ou seja, utilizada na transpiração. Portanto, a figura mostra que a transpiração do  eucalipto, com base na média de dois anos de medição, foi maior do que a do cerradinho. Mas este maior consumo de água correspondeu à produção de 366 m3/ha de madeira, cerca de 10 vezes maior do que a estimativa de produção de biomassa do cerradinho. Isso mostra uma característica importante do eucalipto: sua alta eficiência do uso da água.

Os resultados da figura 1 ilustram também a questão do possível impacto das plantações sobre o lençol freático. Este possível impacto, se ocorrer, vai se dar não pela absorção direta de água do lençol pelas raízes, mas sim pelo aumento do déficit anual de água no solo criado pelo crescimento das plantações florestais, diminuindo assim a percolação de água que recarrega os aquíferos.


Neste sentido, é fundamental que o planejamento destas plantações florestais em larga escala seja feito com base no conhecimento das disponibilidades naturais de água da região, considerando-se o balanço entre a precipitação média anual e a taxa de evapotranspiração potencial a fim de não gerar conflitos. Pela mesma razão, é necessário que o planejamento  da ocupação dos espaços produtivos da paisagem pelas plantações seja feito com base na microbacia hidrográfica, escala ideal para o manejo adequado dos recursos hídricos. Tendo a microbacia hidrográfica como base do planejamento do manejo florestal, fica mais fácil identificar áreas hidrologicamente sensíveis ou ripárias, que devem permanecer sem uso e devidamente protegidas. E a integração dos plantios florestais com a vegetação natural contribui para a manutenção da biodiversidade ao longo das plantações.

Enfim, permite entender a função destas áreas hidrologicamente críticas de sorte a fazer de sua conservação não apenas o cumprimento da lei, como manda o Código Florestal, mas principalmente garantir a sustentabilidade hidrológica do manejo florestal. Como se pode perceber, esta necessidade não se restringe apenas às plantações de eucalipto, mas de qualquer intervenção na paisagem que vise à produção, seja ela de eucalipto, soja, laranja ou pasto.

E a receita é simples: na paisagem há espaços para a produção, mas há também espaços de nítida vocação de conservação dos serviços ambientais. Querer brigar com o Código Florestal por causa disso significa dar um tiro no próprio pé.


Eng. Agr. Walter de Paula Lima
Docente Aposentado Permissionário
USP/ESALQ
Departamento de Ciências Florestais


(matéria veiculada na revista Citricultura Atual, fev/2010

É MUITO DIFICIL ENSINAR QUEM NÃO QUER APRENDER


sexta-feira, 27 de novembro de 2015

103. GRUMIXAMA AMARELA E PRETA

Eu conheci as grumixamas pretas na década de 40, em minha infância no alto da Lapa, em São Paulo. O bairro estava se formando e ainda havia muitos terrenos baldios revestidos com um pouco da antiga mata atlântica. Após as partidas de futebol de rua jogado com bolas de meia, quando batia à fome, a gurizada procurava nos matos próximos algumas amoras de cor verde, ou as grumixamas pretas. Não me lembro de ter visto, naqueles locais, essa variedade amarela.



Elas frutificam na mesma época, em novembro, entretanto é  possível que a preta seja um pouco mais tardia. São diferentes os sabores e me parece que as amarelas são menos adstringentes e mais doces. Mas
 essas qualidades podem ter conotação com o terreno etc.

Aproveitamos o ensejo para fazer uma geléia das grumixamas amarelas, identicamente como já foi explicado na postagem sobre as grumixamas pretas. Ficou bem gelificado o que demonstra a existência de pectina na fruta.


Vale a pena cultivar essa excelente fruta de nossa mata atlântica.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

102. ALCAPARRAS (27)


Após quinze anos de trabalhos, no sentido de adaptar a caparis spinosa (inermis) em clima e terreno do Sul de Minas Gerais, conseguimos selecionar duas plantas originadas das variações obtidas pela multiplicação sexuada.  Com uma dezena de plantas no ano 2000 obtivemos sementes decorrentes da polinização aleatória entre essas plantas. Naturalmente, as alcaparreiras originadas dessa multiplicação sofreram variações mercê do estresse causado pela adequação ao novo terreno e clima. Em decorrência obtivemos uma diversidade de desempenhos. Algumas plantas se desenvolveram mais mofinas, outras com folhas menores ou cujos botões florais se abriam mais cedo, outras ainda, com sistema radicular enfraquecido e que, por isso, sofreu o ataque de fungos e insetos.

Nossa esperança é que aparecesse alguma variação adaptada, mais vigorosa, cuja produção pudesse responder as nossas necessidades e isso aconteceu. Há três anos selecionamos duas plantas às quais chamamos de BR 1 e BR 2  (fotos 443 A  e  441  A)  e a partir daí iniciamos a multiplicá-las utilizando a estaquia de brotações herbáceas. Naturalmente a clonagem utilizando o meristema seria o ideal, mas não tivemos acesso a esses serviços. 



As fotos 447 A  e  446  A, mostram duas estacas da BR  2 com dois anos e meio, muito vigorosas e já produzindo. Abaixo, fotos 449 A, 452  A e 453  A  são de estacas, também da matriz BR  2, com um ano e meio, vigorosas e já produzindo.



Escolhidas essas plantas matrizes, poderíamos utilizá-las para a produção de sementes originadas de polinização cruzada ou auto-fecundação. Entretanto por alguns motivos que fogem ao escopo deste trabalho, é mais aconselhável utilizar clones das plantas madre.


Na postagem anterior apresentamos alcaparras compradas em um supermercado Italiano, conservadas no sal. O objetivo foi comparar paladar e cheiro com as que produzimos no sítio São Camilo para averiguar se a diferença de clima e terreno poderia alterar aroma e sabor. Submetemos a apreciação de algumas pessoas familiarizadas com o condimento e as alcaparras produzidas aqui superaram às provenientes da Itália. Penso que seja por que são mais frescas. O objetivo foi atingido, agora temos que difundir a cultura para que as pequenas propriedades familiares possam suprir o consumo brasileiro, que é bastante significativo, e com isso também aumentar sua renda viabilizando a sua vida no campo.  10/10/2015.


101. ALCAPARRAS (26)




As duas embalagens com alcaparras e sal foram compradas nos supermercados COOP, na Itália e custam em torno de 2,50 euros, isto é, descontado o sal, em torno de R$170,00 o kg. (set. 2015). As alcaparras Ponti são marroquinas, as La Palma são confeccionadas em Nápoles e não indicam a origem, mas provavelmente são italianas.

As alcaparras conservadas somente no sal, - entre 25% e 35% de sal - em geral custam mais caras do que aquelas conservadas em água de vinagre. Um dos motivos é porque as conservadas somente no sal não tem seu peso adicionado da água, isto é, são mais enxutas. A alcaparra conservada na água de vinagre tem seu peso adicionado da água que ela contem.

Poderíamos perguntar por que a Itália, produtora de excelentes alcaparras (Pantelleria) importa e vende alcaparras marroquinas. Ocorre que a produção de alcaparras, alem do clima e solo, requer muita mão de obra. A coleta dos botões florais não pode ser automatizada, tem que ser feita a mão e, durante a época da colheita, quase todo dia. Um trabalhador italiano (ou extra comunitário, sem documentação) não ganha menos do que 25 euros por dia de trabalho, o que torna a produção de alcaparras na Itália muito mais cara do que a do Marrocos, onde a mão de obra é  muito mais barata.

A viabilidade da produção de alcaparras italiana tem sentido quando feita por pequenos proprietários muitas vezes sem intervenção de empregados. Esses produtores se reúnem em cooperativas e com isso podem conseguir viabilizar a produção e venda do produto.

Seguindo o mesmo raciocínio, o cultivo de alcaparras no Brasil deve ser entendido como uma solução para as pequenas propriedades onde o produtor rural e sua família cuidam, recolhem e eventualmente tratam as alcaparras. Para o tratamento dos botões florais e sua comercialização poderão se constituir em cooperativas como existem em Pantelleria na Italia.

Por esse motivo sempre temos defendido a tese de que no Brasil a produção de alcaparras deve visar às pequenas propriedades, eventualmente no nordeste brasileiro. Sem dúvida o lucro originado dessa produção poderia representar uma ajuda importante para manter o sertanejo no campo. Com a palavra os órgãos governamentais de suporte aos agricultores de nosso país.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

100. CORIMBIA (CITRIODORA)


A Corímbia Citriodora tem um crescimento mais lento que os eucaliptos e uma densidade maior chegando aos 900 quilos por metro cúbico. Seu cerne varia em tons de marrom, assemelhando-se ao jacarandá que vegeta no sul de Minas Gerais. É, portanto, uma madeira que poderá ser interessante para a movelaria, mas principalmente para esquadrias e execução de telhados. A amostra da foto acima é de uma árvore com 25 anos cujo DAP era de 0,70 m. Se houvesse vontade política para incentivar o reflorestamento com essa espécie poderíamos prescindir, a médio prazo, de derrubar árvores nativas na região amazônica que precisam de  duzentos anos para se desenvolver.

A finalidade desta postagem, todavia, é mostrar uma praga que atacou uma Corímbia com mais de 30 anos. Somente uma, felizmente, em um universo de quase duas mil árvores.







Estou procurando um especialista que possa diagnosticar a praga e até mandei uma foto para o Globo Rural.  Por enquanto como observador, posso especular que provavelmente trata-se de o ataque de algum inseto que teria deixado ovos na casca da árvore. Talvez a broca da laranjeira. A lagarta originada dessa postura, porém, ao invés de se aprofundar no ebúrneo ou no cerne do fuste da árvore, preferiu alimentar-se do espaço entre o ebúrneo e a casa colocando em risco a alimentação do vegetal. Esse caso é interessante na medida em que os eucaliptos e, provavelmente as corímbias, eliminando a seiva que se solidifica em contato com o ar, fecha a entrada de ar necessário para a vida das lagartas e assim se defendem do ataque desses insetos.


Espero que alguém especialista na matéria possa se interessar pelo fato.     Junho/2015